miguel godinho

todos os dias diferente num mundo sempre igual

o excesso ou a ausência

o silêncio tem essa dupla
(e dúbia) expressão:
o excesso de consciência
ou a ausência disso mesmo

vinte anos depois

vinte anos depois apercebo-me que também eu escolhi a vida, um emprego, uma carreira, uma família que amo, uma merda de uma televisão grande, máquinas de lavar, carros com pouca quilometragem, leitores de mp3 e computadores com a maçã, facebook’s, instagram’s e whatsapp’s — à espera que alguém se importe com o que ali digo, escolhi uma vida saudável, colesterol baixo, corridas três a quatro vezes por semana, planos de saúde cobertos pela ADSE, escolhi esquemas que me permitissem prestações fixas para pagar, escolhi um apartamento para morar num qualquer bairro periférico, escolhi os amigos, coisas da moda e roupas a condizer, escolhi sapatos bonitos e camisas aos quadradinhos, feitas do melhor tecido, escolhi embebedar-me ao sábados à noite e pensar quem diabo sou eu ao domingo de manhã, escolhi sentar-me no sofá a teclar no computador ou a assistir a programas que nada me acrescentam, escolhi apodrecer no fim de tudo, envergonhando todos aqueles que vão aparecendo aqui e ali na expectativa de me devorar, escolhi o futuro, escolhi a vida e eis que aqui me encontro a ver os anos a passar

vestígios

todos os dias
descubro vestígios
de um outro eu
perdido na mente

os dias jorram

talvez nem dês por isso
mas a verdade
é que tantas vezes insistes
na mentira

os dias jorram
barulhos muito estranhos
esses sons caninos
que brotam da cabeça

os sons graves
de te sentires
a viver dentro
de ti

e há noites
em que te olhas
acordado
a pensar sabe-se lá
em quê

tantas noites
em que ouves calado
o arrastar das correntes
as gargalhadas noturnas
nas ruínas do fogo

o precipício tão perto

antes que o tempo expirasse tantas vezes te pedimos que não virasses a cara para não veres, tantas vezes te pedimos que não permanecesses concentrado no escuro da noite, porque existia um penhasco que se abria à tua frente, a gravilha, as pedras rebolando à velocidade do ar, o precipício tão perto, tu observando a profundeza da vida, os olhos a deslizar por sítio nenhum, o corpo a cair primeiro, os braços estendidos, a respiração muito difícil, tu sempre deitado sem saberes ultrapassar

falta perceber agora para onde foste quando te deixaram descer por ali abaixo, falta perceber se foi justo alimentares o esforço de quereres esquecer a vida, falta tanto, falta tudo, faltas tu, faltou teres reforçado o pensamento, faltou a atenção das pessoas, faltou não te deixarmos descer a pique, cair a fundo, que vontade de nos deixarmos escorregar por aí abaixo para ir ter contigo, para te agarrarmos pela mão, para te puxarmos para cima, para te defendermos da noite, a vida que se escapou, os braços nus, a terra a escorrer pelo corpo abaixo, tu como se estivesses numa prateleira, a cabeça cheia de pensamentos ilícitos, a alma gretada de ti, a alma gretada de ti

antes que o tempo expire

há um ar sincero que circula no ar, e antes que o tempo expire, esse tempo que tantas vezes nos põe a pensar, peço-te que não vires a cara para não veres, peço-te que não permaneças concentrada no escuro da noite, porque existe um penhasco que se abre à tua frente, a gravilha, as pedras rebolando à velocidade do ar, o precipício tão perto, tu observando a profundeza, os olhos a deslizar por ali abaixo, o corpo a cair primeiro, os braços estendidos, a respiração muito difícil, tu sentada em posição de lótus;

falta avaliar a distância que vai dali até ao chão, falta perceber se é justo alimentares o esforço de quereres esquecer a vida, falta tanto, falta tudo, falta reforçares o pensamento, falta a atenção das pessoas, falta evitares descer a pique, cair a fundo, que vontade de me deixar escorregar por aí abaixo para ir ter contigo, para te agarrar pela mão, para te puxar para cima, para te conseguir defender da noite, a vida cada vez mais trémula, os braços nus, a água fria a escorrer pelo corpo abaixo, tu como se estivesses numa prateleira, um braço inclinado e o pé dormente, a cabeça cheia de substâncias ilícitas, a alma gretada deste hospital, a cama inchada de ti;

lembro-me de quando tínhamos menos vinte anos, o corpo muito menos infetado de dores, lembro-me dos afetos, de quando a vida era menos opaca, do teu coração que sabia olhar por nós, lembro-me da força, de haver horas por todo o lado, de exibires robustez, de construíres mundos, nunca se sabe com precisão para onde se vai, se queres que te diga, também eu agora sinto os barulhos da noite, também eu fecho os olhos com medo, também eu grito ao ver tanta gaivota em terra, há sons que nunca se esquecem, há palavras que nos paralisam, há verdades que se demoram, tu a dizeres eu quero muito, eu quero-te muito;

não se pode escapar nem contrapor a experiencia agradável de nos imaginarmos parados de peito metido para fora a falarmos como deve ser, sem ser necessário ceder às emoções ou simplesmente deixar que a vida nos consuma, não se pode nada disso, não se pode nada disso

o mundo afinal

o mundo afinal
anda mesmo ao contrário
e tu bem sabes que tudo vale
que tudo serve
que o que comanda o sonho é a loucura
e essa tua loucura até encaixa na minha
e a poesia é coisa de gente grande
a poesia é coisa
de quem se mete em revoluções
e agora é a hora de salvarmos o mundo
nem que seja com uma mão cheia de nada
agora é hora de inventarmos qualquer coisa
qualquer coisa de extraordinário
qualquer coisa que nos confunda
qualquer coisa que nos ponha
muito felizes e contentes