miguel godinho

todos os dias diferente num mundo sempre igual

dois dos melhores

nem todos os poemas são complexos
alguns começam em forma de pergunta
mas nem por isso se espera que para eles
exista uma resposta

ninguém duvidará se considerarmos ramos rosa
ou a adília lopes dois dos melhores
poetas de sempre mas haverá sempre outros
a tentar autolegitimar-se

não estaremos errados ao admitir
que há poetas que não só escrevem bem
como com certeza serão
impossíveis de se aturar

a poesia ensina-nos a olhar
mas também origina discussões
a verdade é que até ao momento nunca descobri
um poeta mais dono da verdade que outro

é bem provável que um poema

é bem provável que um poema
permaneça em ti
apenas alguns segundos
ainda que mais cedo ou mais tarde
te possa conduzir
em direcção ao abismo

é bem possível
que por entre o murmúrio de silêncios
consigas vislumbrar
a volúpia das palavras
a transparência das horas
na dispersão dos dias

mas se esse texto te faz vibrar
vezes sem conta
não deixes de com ele renascer
uma e outra vez
porque às vezes
nem uma vida inteira te basta
para experimentares
a claridade de estares vivo
e seres luz

sê em permanente explosão de ti próprio

A honestidade e a lealdade são formas de humanidade. Tal como o são o respeito, a integridade e a justiça. Dando cumprimento a estes valores, estarás sempre bem contigo próprio, as boas energias emanam de forma natural de quem é intrinsecamente bom, e sentem-se à distância, mas também fazem sofrer aqueles que vivem em rancor.

Não te incomodes com isso, sê tu mesmo, sê o que quiseres ser, sê em permanente explosão de ti próprio, sê a energia que existe em ti – e, se quiseres, escreve sobre isso, e sobre o que demais entenderes, escreve, escreve sempre. E dança, dança muito, mesmo que os sapatos te façam doer os pés ou o piso seja demasiado escorregadio.

talvez

talvez as boas vibrações aconteçam naturalmente se te mantiveres disponível, se só te entregares a quem te quer bem, se acreditares em ti próprio, talvez estes dias sejam apenas uma ilusão, talvez os computadores, os emails, os telemóveis e as redes sociais não sejam mais que ferramentas inventadas para te desligares de ti próprio, talvez ainda não te tenhas apercebido que é hora de seres livre outra vez, de te descobrires, de seres mais tu, talvez ainda não tenhas sido capaz de admitir isso mesmo, talvez ainda não tenhas conseguido olhar-te convenientemente ao espelho, talvez seja hora de agradeceres o facto de estares vivo e admitires a irreverência

o excesso ou a ausência

o silêncio tem essa dupla
(e dúbia) expressão:
o excesso de consciência
ou a ausência disso mesmo

vinte anos depois

vinte anos depois apercebo-me que também eu escolhi a vida, um emprego, uma carreira, uma família que amo, uma merda de uma televisão grande, máquinas de lavar, carros com pouca quilometragem, leitores de mp3 e computadores com a maçã, facebook’s, instagram’s e whatsapp’s — à espera que alguém se importe com o que ali digo, escolhi uma vida saudável, colesterol baixo, corridas três a quatro vezes por semana, planos de saúde cobertos pela ADSE, escolhi esquemas que me permitissem prestações fixas para pagar, escolhi um apartamento para morar num qualquer bairro periférico, escolhi os amigos, coisas da moda e roupas a condizer, escolhi sapatos bonitos e camisas aos quadradinhos, feitas do melhor tecido, escolhi embebedar-me ao sábados à noite e pensar quem diabo sou eu ao domingo de manhã, escolhi sentar-me no sofá a teclar no computador ou a assistir a programas que nada me acrescentam, escolhi apodrecer no fim de tudo, envergonhando todos aqueles que vão aparecendo aqui e ali na expectativa de me devorar, escolhi o futuro, escolhi a vida e eis que aqui me encontro a ver os anos a passar

vestígios

todos os dias
descubro vestígios
de um outro eu
perdido na mente